PROMETEU
Não choreis prematuramente; esperai até que tenhais de tudo pleno conhecimento.hoje separava-nos um banco de jardim. aproximava-nos esta faceta de vítimas e uma tristeza infantil de tão insistente.
eu sabia que, tal como eu, te doía o peito.
bebias o café devagar enquanto fumavas, e o banco que nos separava era cada vez mais curto. sou tão fácil com a instabilidade. venha ela, tudo menos a cura.
you are what you love and not what loves you backmurmurei qualquer coisa do meu banco. precisava que soubesses que se alguém te abraçaria hoje, seria eu. logo eu.
não te conheço e ainda assim sei como soa o teu timbre de manhã depois de poucas horas de sono e antes do primeiro café. sei a vibração do soalho velho quando nele te deitas e te armas em johnny cash.
sei quantas pestanas te caem por dia, quantos desejos desperdiçados, e qual a música que te acorda todas as manhãs. não sei o que fazes mas sei que adoras refugiar-te em lisboa, tanto quanto eu e apalpar um novo banco para começar de novo. hoje cruzámos-nos num.
às 16h, neste largo, fomos cúmplices.
co-autores deste desmoronamento interno. mata e esfola. eu atirava uma pedra, tu atiravas duas ou três. incitámos-nos mutuamente. mostra-me a tua cicatriz que eu mostro a minha. trocámos pecados, comparámos as certezas de ontem.
apalpa a minha ferida aberta, a que criei, com direito a nome próprio e patente. sou íntima da tua dor sem saber.
e ainda assim não sei o teu nome nem o teu porquê.
foi fácil chorar à tua frente com um banco a fazer de fronteira.
querias passar a fronteira e amparar-me, achavas que devias. repeti-te aos olhos que te queria longe, não precisava de mais imigrantes ilegais.
conforta-me de longe, por favor. não quero conhecer a tua textura nem o teu sabor. ampara-me daí, chega.
não te conheço. e sei a forma exacta que a tua mão cai como uma concha sobre o teu peito quando te deitas. esse conforto como numa ligação psicossomática no exacto momento antes de adormeceres, são um. mão e peito. e isso já não me comove.
PROMETEU
Tu suspiras, e gemes... Que farás, então, quando souberes de tudo?deixo que me vejas patética, sem risco nos olhos, sem acessórios, sem letras de músicas disparadas, e sem piadas fáceis. vês-me como muitos não ousaram e bateram rápido com a porta. como a muitos barrei entrada, e pedi exageros.
you are what you love not what loves you backnão vi pena. vi o que quis ver com os olhos cheios de ti.
chorei pelos dois. a tua nicotina e o niagara nos meus olhos.
ela trocou-te. mas antes fez por deixar a blusa vermelha no chão do teu quarto. marcou assim um território que abandonou. vejo a blusa dela na tua íris, e sei que não lhe tocaste. passas sobre ela de pés descalços de manhã, é o teu ritual. senti-la nos pés. não a dás, não a vendes numa loja de roupa em segunda mão, não a deitas fora, não lhe telefonas para a devolver, estupidamente, achas que ela se irá emocionar quando voltar a deitar-se no teu chão.
ainda aqui não sei o que te chamar.
sei que odeias lamentos e exageros, e mesmo assim serves de confidente nesta tarde. achas-me uma ofélia exagerada e mesmo assim ofereces-me terra segura, sem água.
vejo-o de andar arrastado na sombra e o coração dispara, não eras tu, nem ele. não houve confronto.
procuras o lóbulo da minha orelha e pedes-me para continuar assim, sem brincos. na ânsia, e incitada por uma brisa qualquer, os meus dedos procuram a tua cara, e ameaçam-te. ai de ti que tires a barba.
somos veneno um para o outro e já não é o banco que nos separa. são eles.
PROMETEU
Não!... Não foi assim que dispôs o destino inexorável. Só depois de haver sofrido penas e torturas infinitas é que sairei desta férrea prisão. A inteligência nada pode contra a fatalidade.
O CORO
E a fatalidade, quem a dirige?
PROMETEU
As três Parcas, e as Fúrias, que nada perdoam.